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Parte II - Estratégias Nutricionais para Manter os Peixes Saudáveis
Para manter
peixes saudáveis é preciso compreender três aspectos básicos relacionados
à alimentação: qualidade, quantidade e freqüência. Esta tríade compõe o
que denominamos de estratégia nutricional.
Um aquarista
consciente sempre irá informar-se e procurar o melhor alimento para seus
peixes. Uma alimentação saudável previne o surgimento de inúmeras
enfermidades dos peixes. Sob o aspecto de comportamento há um incremento
de vitalidade, acentuação da coloração e melhoria da atividade reprodutiva
dos peixes.
Não esqueça que
uma boa ração deve conter os seguintes pré-requisitos:
-
alimento
completo para a espécie e fase de vida da mesma.
-
conter somente
ingredientes de boa qualidade.
-
rico complexo
vitamínico com complexo B, vitamina E, além de quantidades elevadas de
vitamina C próximas a 500mg.
-
rico complexo
mineral. Por exemplo, sempre conter maior quantidade em relação a
quantidade de fósforo, sendo este último em pequenas quantidades.
-
não deve
alterar a coloração da água.
-
não conter
excesso de gordura (Extrato etéreo), principalmente em formulações para
peixes adultos. Rações que oferecem níveis acima de 8% de extrato etéreo
podem ter a intenção de mascarar a falta de palatabilidade e sofrer com
maiores riscos de peroxidação desta matéria prima. Mais grave ainda é o
fato de que o excesso de gordura restringe o consumo alimentar e pode
dificultar a assimilação de alguns nutrientes da ração.
-
conter níveis
de proteína bruta entre 30 a 35% (kinguios e carpas koi, por exemplo) e
níveis superiores para peixes carnívoros e onívoros com tendência a
carnívoros. Para acarás discos, por exemplo, estes níveis de proteína
bruta podem ultrapassar 46%.

Belos exemplares de carpas koi de um lago ornamental. No mercado existem
linhas de rações destinadas para estas espécies. Muitas destas linhas de
rações vem com a denominação "ponds" e devem sempre ter preferência na
hora da escolha. Não somente por atender as exigências nutricionais, mas
pelo baixo potencial de pluição que pode deteriorar a qualidade da água
dos lagos de jardim.

Acarás
Discos exibindo vitalidade. Os Discos são muito exigentes quanto a
alimentação e podem adoecer facilmente se houver algum desbalanço de
nutrientes.

Na foto é possível visualizar alevinos de carpas coloridas
com o ventre moderadamente retraído. Na compra de peixes, quando
visualizarmos um peixe nestas condições devemos suspeitar de algum
problema. A dica é sempre solicitarmos que alguém alimente os peixe que
queremos comprar na loja para observarmos se há, ou não apetite. Peixes
enfermos geralmente perdem o apetite, ok?
- A qualidade do alimento
a) Deve-se a
presença dos ingredientes que contenham os nutrientes necessários para que
o peixe realize suas atividades basais (respiração, nado, etc...),
crescimento e reprodução dos peixes.
Os ingredientes
de uma ração correspondem, por exemplo, ao óleo de soja, de milho, de
peixe, os farelos e farinhas de peixe, de arroz, glúten, etc... Os
nutrientes estão inseridos nestes ingredientes. Assim, a escolha dos
melhores ingredientes está baseada na quantidade e necessidade dos
nutrientes que a ração necessita para atender as exigências nutricionais
de um peixe. Ingredientes de qualidade inferior geralmente são encontrados
em rações mais baratas. Rações mais caras, provavelmente devem conter
ingredientes de qualidade superior. O alto custo de algumas marcas de
rações podem ser compensados pelos benefícios.
É verdade que
nem tudo que é mais caro necessariamente é melhor, mas com certeza merece
uma atenção especial. O aquarista precisa ser muito crítico sobre este
aspecto e atento para estratégias de marketing enganosas executadas por
quem não entende de aquarismo.
Diferentes
espécies e fases de vida implicam em diferentes exigências nutricionais.
Estas exigências estão relacionadas aos hábitos alimentares. Vale lembrar
que hábitos alimentares dos peixes ornamentais classificam-se basicamente
em carnívoros, onívoros e herbívoros. O aquarista, sempre que precisa,
deve procurar informar-se sobre quais as melhores alternativas de
alimentação para as espécies de peixes que cultiva.
b) A
combinação adequada de nutrientes como aminoácidos, vitaminas e minerais.
A combinação
destes nutrientes é fundamental. Um bom exemplo é a relação entre os
minerais cálcio e fósforo. Na formulação das rações há uma proporção
padronizada de 1,5:1 aproximadamente. Outro exemplo seria o uso da
vitamina E que além de um nutriente serve como antioxidante para preservar
a gordura das rações (Extrato Etéreo). Uma deficiência de aminoácidos
essenciais e vitamínas pode inclusive ocasionar algumas patologias de
causa nutricional.
c)
Estabilidade na água.
A ração deve
causar o menos possível de lixiviação. A lixiviação é a perda de
nutrientes da ração em contato com a água. É o quanto a ração polui a água
do aquário. Um bom exemplo é o caso de rações que liberam excesso de
fósforo e proteína na água. Rações de baixa digestibilidade também se
enquadram neste contexto. A vitamina C, por exemplo é hidrossolúvel e
necessita estar protegida no pellet. O aquarista deve deixar de lado na
prateleira rações com baixos níveis de vitamina C.
d) Capacidade
em atrair os peixes.
A palatabilidade
e a cor são os principais fatores para atrair os peixes. O aquarista
precisa estar atento que os peixes possuem preferências e podem algumas
vezes não demonstrar tanta voracidade em comer a ração logo após alguma
mudança de marca. Isto não é uma regra, mas peixes condicionados a comer
uma mesma ração por muito tempo podem inclusive rejeitar a nova ração. A
flutuabilidade da ração, por sua vez também colabora para atrair mais, ou
menos um peixe. Algumas espécies como corydoras, botias preferem pellets
que afundam rapidamente. Já os discos alimentam-se muito bem no meio da
coluna de água e tornam-se muito desajeitados ao comer na superfície da
água. Converse com o lojista, e discutam as melhores opções para os peixes
que você compra. O lojista deve estar preparado para responder estas
questões.
e)
Granulometria
A granulometria
corresponde ao tamanho e a forma de apresentação do pellet da ração.
Preconiza-se um tamanho de pellet próximo de 20% da abertura da boca do
peixe. Pellets grandes demais para peixes pequenos são prejudiciais pela
mesma razão que pellets pequenos são prejudiciais para peixes grandes. A
razão é fundamentada na maior demanda de energia para que o peixe consiga
fazer a apreensão e ingestão de uma quantidade suficiente de ração para
atender suas exigências nutricionais. Um desajuste da granulometria
reflete em redução da taxa de crescimento.
- Quantidade de Alimento Oferecida:
Para peixes
ornamentais de aquários, em geral a maneira mais prática de determinar a
quantidade de ração a ser oferecida é através do apetite dos peixes. É
possível oferecer ração a vontade desde que:
Na época de
reprodução aconselha-se aumentar a oferta de alimento, bem como a
freqüência de alimentação para que os peixes produzam gametas de melhor
qualidade que resultará em embriões, larvas e alevinos mais resistentes.
Há também uma
alternativa técnica que pode ser aplicada em pisciculturas ornamentais,
lagos de kinguios e carpas koi. Baseia-se no cálculo da quantidade de
ração diária em função do percentual de biomassa. Isso é interessante para
quem quer aproveitar o melhor desempenho dos peixes durante a fase de
crescimento, reduzir os custos com alimentação e estimar a duração de seu
estoque de ração.
Procedimento:
Capture uma amostra de peixes do lago, ou tanque de peixes ornamentais.
Após faça a contagem dos exemplares capturados. Deve-se sempre calcular o
somatório do peso dos peixes tendo como resultado a biomassa total de
peixes.
Por exemplo:
Um lago que irá receber 8 kinguios onde o somatório do peso dos peixes
(biomassa) foi de 2,620kg.
Quanto
oferecer de ração diária ?
Resposta:
Biomassa total do lago, ou tanque X percentual de biomassa (em ração).
2,620 X 0,03%
(3% da biomassa de peixes em ração) = 78,6g de ração por dia.
Vou responder
mais três questões que não foram expostas:
1- O que é
percentual de biomassa ?
É o
percentual de ração que devemos oferecer em relação a biomassa total
(somatório do peso de todos os peixes). Existe uma tabela de referência
deste percentual para kinguios e carpas koi de acordo com a fase de vida e
a temperatura da água. Isto porque os peixes possuem diferentes exigências
nutricionais em cada fase de vida. Já a temperatura influencia diretamente
no consumo de alimento. Temperaturas elevadas estimulam os peixes a
comerem mais, por outro lado as mais baixas induzem os peixes a comerem
menos.
2- Como saber
que percentual de biomassa utilizar ?
Basta seguir
a tabela referente ao percentual de biomassa oferecido diariamente para
carpas e kinguios de acordo com a fase de vida e a temperatura da água.
|
Fase de vida |
Temperatura da água |
Porcentual de biomassa |
Alevinos
Alevinos *
Alevinos * |
Verão e Primavera
Outono e Inverno TºC>10e<15ºC
Inverno TºC<10ºC |
12 a 15%
-
Não ofrecer alimento |
Juvenís
Juvenís
Juvenís |
Verão e Primavera
Outono e Inverno TºC>10e<15ºC
Inverno TºC<10ºC |
5 a 7%
1%
Não ofrecer alimento |
Adultos
Adultos
Adultos |
Verão e Primavera
Outono e Inverno TºC>10e<15ºC
Inverno TºC<10ºC |
2 a 3%
1%
Não ofrecer alimento |
|
*Temperaturas e épocas do ano
impróprias para criacão de alevinos de kinguios e carpas |
3- Quantas
vezes ao dia devo oferecer a ração calculada ?
O total de
ração estimado no exemplo acima foi de 78,6g. Lembram ? Pois bem, esta
quantidade deve ser fracionada para ser oferecida de duas a quatro vezes
ao dia para peixes adultos, ou juvenis e seis a oito vezes para alevinos.
Se decidir
oferecer 02 vezes diárias será 39,3 g na parte da manhã e 39,3 g na parte
da tarde.
- Freqüência de alimentação:
Quando o
criador, ou aquarista não optarem pelo programa nutricional que envolve o
percentual de biomassa para estimar a quantidade de ração deve-se oferecer
ração duas vezes ao dia. Se quiser oferecer mais vezes ao dia não há
problemas. Não há uma regra geral desde que não seja oferecida em excesso.
O pior erro do aquarista é oferecer ração em excesso, pois além de não
fazer bem a saúde dos peixes contribui para prejudicar a qualidade da
água.
(1) Rodrigo Mabilia
atualmente é Integrante da Equipe da AQUARIUM Alimentos e Acessórios para
Aquarismo; do AQUAVET (Laboratório Integrado de Diagnóstico de Patologias
de Animais Aquáticos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul);
Consultor e Responsável Técnico da Estação de Piscicultura da Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra-RS); Executor de Projetos e Assistência Técnica
em Piscicultura Ornamental e Aquarismo pela DeltaSul Aquacultura ltda.;
Doutorando em Produção Animal/Aquacultura no Departamento de Zootecnia da
Faculdade da Agronomia da Universidade Federal do Ro Grande do Sul
(UFRGS).
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sobre a Nutrição de peixes Ornamentais |